Blog MarvoxBrasil 10 Anos [Parte 2]

Na 1ª Parte deste especial, contei como aconteceu o meu primeiro contato com os videogames. Meu pai ligava o Atari apenas em datas comemorativas; A chegada do Master System como meu primeiro console e que a partir daqui comecei a frequentar locadoras e ler Revistas de Games.

O interesse repentino da minha irmã por jogos trouxe o Dynavision 3 que me deu oportunidade de conhecer os jogos do sistema NES, e o MSX com sua receita de sopa de ervilhas como o primeiro contato com um computador.

Se você chegou agora e não leu o texto anterior, recomendo que pare por aqui e acesse a 1ª Parte, assim você não perde a linha do tempo.

E para você que já leu, acompanhe comigo a 2ª parte dos 10 Anos do Blog MarvoxBrasil!


No fim de 1992 meus pais haviam se separado, isso causou uma enorme ruptura na família dividindo parentes por parte de pai e mãe. Enquanto meus pais se resolviam, minha irmã e eu fomos morar com meus avós paternos em um bairro do qual não conhecia ninguém. Com a mudança de região também ocorreu a mudança de escola.

O mais preocupante para os meus pais enquanto ocorria a separação era com relação a escola, e o fato de que não podíamos perder o ano. Um dia acordei e estava morando com meus avós e acabei perdendo contato com todos os amigos de infância do bairro antigo, e no outro dia estava entrando em uma nova escola.

Morar com meus avós era muito legal e sinto muita saudade, mas para uma pessoa que estava quase na adolescência e que antes tinha contato com amigos na mesma escola desde o Ensino Infantil, fora que, no bairro antigo tinha amigos que frequentavam a locadora e trocávamos experiência sobre videogames, no entanto, a casa dos meus avós nesse sentido me fez voltar muitos anos para o passado.

Na casa de meus avôs tudo era mais antigo, principalmente a TV que era a única da casa, isso também dificultava a instalação de qualquer videogame.

Naquela época não tínhamos tantas informações sobre esses aparelhos, principalmente os adultos e o pessoal de mais idade. Meu tio, por exemplo, achava ruim tentar instalar qualquer aparelho diferente na TV pelo receio de estragar o único televisor onde meus avós assistiam o jornal e a novela. Aqui temos aquele velho mito do videogame estragar a TV, isso reinava forte na época, e assim fiquei boa parte do ano sem jogar nada.

Como esse texto fala sobre experiência com videogames então posso dizer – 1993 foi o ano em que perdi todo o contato que tinha com qualquer coisa referente a jogo eletrônico.

Houve um momento ainda naquele ano que fiz amizade com o filho de um vizinho que morava próximo da casa dos meus avós e que me convidou para a casa dele, e fomos lá jogar bola no quintal, depois ele ligou a TV e mostrou um sistema que eu nunca tinha visto de perto, o Magnavox Odyssey².

O console fez parte da 2ª Geração dos Videogames, lançado na mesma linha do tempo do Atari 2600 e Intellivision. Para você ver como a realidade dos videogames eram muito diferentes de pessoa para pessoa.

Naquela época em 1993, o Magnavox Odyssey² já estava mais do que datado. O lançamento dele tinha acontecido em 1978, e só foi oficialmente lançado no Brasil em 1983 vendido pela Philips e renomeado apenas como Odyssey. Um ano depois do lançamento o console foi descontinuado.

Estava diante de um console de 15 anos atrás. Agora, me pergunta se eu ligava para isso? Claro que não! Ainda mais naquela época que eu nem sabia o que era um Magnavox Odyssey². Esse meu amigo tinha o jogo ‘Didi na Mina Encantada’, que tratava-se de uma versão brasileira do jogo Pick Axe Pete! algo que aconteceu de maneira equivalente com a Tectoy e os jogos da Turma da Mônica.

Uma das primeiras reproduções brasileiras dos Videogames aconteceu no Odyssey²

As férias escolares de Julho de 1992 haviam chegado e fui para a casa de minha mãe. Ela havia levado para a casa dela o Master System porque sabia que iríamos para lá passar as férias. Como já sabia onde era a locadora de Praia Grande, fui alugar mais alguns jogos. A ideia era levar o videogame de volta para São Paulo no fim das férias, mas o “espertão” aqui na volta das férias esqueceu o console no litoral. Parabéns pra mim! \o/

Fiquei mais um tempo daquele fim de férias sem jogar nada, até que meu pai me levou para o antigo apartamento de infância e acabei lembrando onde tinha guardado aquele Dynavision 3.

Dessa vez não teria erro, negociei com meu pai para levar o videogame na casa dos meus avós, mesmo sabendo que era bem capaz de não conseguir instalar na TV antiga e ele concordou.

De volta à casa de meus avós, aconteceu uma coincidência naquele quase final de 93, minha avó havia ganhado do meu tio uma TV, onde instalei o Dynavision 3 para jogar. Na sequência, meu pai resolveu me levar para dar uma volta no bairro e então descobrimos uma locadora a alguns quarteirões, e assim comecei alugar jogos de NES com maior freqüência.

No Natal de 93 acabei ganhando o jogo Mega Man 5. Eu já tinha alugado os jogos anteriores da série e queria comprar o Mega Man 4 que tinha visto na Revista VideoGame, só que a loja não vendia mais.

Depois de dois anos morando no bairro dos meus avós, uma coisa eu tinha certo, não iria morar lá por muito tempo e sabia que mesmo que eu fizesse amizades, não duraria muito porque naquela época era muito fácil perder contato com as pessoas, não existia Facebook e muito menos Whats App, e se você não tivesse o número do telefone das pessoas, aí que ficava mais difícil ainda manter contato.

Meu pai havia conseguido um apartamento em um bairro próximo dos meus avós paternos, novamente eu estava naquela situação de novidade incerta, se seria bom ou ruim, só o tempo iria dizer.

Finalmente, minha irmã e eu fomos morar com meu pai no bairro novo, e de volta a morar em um prédio. No prédio antigo onde morava não haviam crianças da mesma idade porque os filhos dos moradores, todos, eram bem mais velhos. As amizades mesmo aconteciam na escola e na locadora.

No prédio novo em que fui morar na adolescência, todos os filhos dos moradores tinham a mesma idade. A adolescência não poderia ser tão receptiva.

É na adolescência que aprendemos a conversar melhor, montar grupos equiparando gostos, ir à festas de aniversário com uma galera e conhecer os amigos da escola de outra galera. Tinham os campeonatos de futebol e basquete, todo mundo se juntava e depois de um determinado convívio acontecia de ir na casa de um e outro, o que aumentava o círculo social.

Na casa dos amigos, além das companhias e da bagunça, era interessante ver as diferentes experiências que cada um trazia naquela época.

Nessas visitas pude chegar perto de vários videogames que antes só via em locadoras ou nas páginas das revistas. Joguei muito Super Nintendo e Mega Drive, terminava os jogos junto com os amigos naquele esquema de quem morrer passa o controle.

Também acabei conhecendo consoles que só via nas propagandas das revistas, como o 3DO. Tinha um amigo que deixava o console guardado no armário porque ele não tinha mais do que dois jogos.

Neste ponto em diante o novo apartamento já estava com a mudança feita, tudo organizado, inclusive havia ganhado um quarto onde pude montar todo um cantinho para os videogames, a realidade dentro de casa ainda continuava sendo o Master System e o Dynavision 3. E lembra do MSX? Pois é, meu pai deu de presente para um primo.

E conforme existe esse contato maior com pessoas da mesma idade é muito comum para quem curte videogame de procurar aquele sistema que os amigos também tem, fica mais fácil pedir jogo emprestado, fazer aquelas trocas, e até participar mais das conversas. Minha vontade naquele momento era ter um Super Nintendo, talvez desde a época que bati o olho em Mario World na primeira locadora que frequentei. E como 90% dos meus amigos tinham o SNES esse seria o próximo objetivo.

No meu aniversário de 12 anos minha mãe trouxe aquele que foi meu último videogame de aniversário, o Super Nintendo.

Quando o Super Nintendo apareceu, na época em que eu frequentava a locadora pelos jogos de Master System, as pessoas procuravam o SNES para jogar Super Mario World, porém, em 1994 aconteceu o relançamento do console da Nintendo que começava a ser vendido com Donkey Kong Country.

Lembro que nas lojas e pelas propagandas, houveram várias edições do Super Nintendo que funcionavam como Combos. Essas edições eram ditadas pelo jogo ilustrado na caixa do aparelho. Tinha toda uma arte trabalhada para a pessoa saber qual jogo acompanhava o console.

Tinha aquela famosa edição do Super Mario World, uma outra com Super Mario Kart, e essa do Donkey Kong Country. E tinha ainda aquela caixa mais simples que só tinha a imagem do console sem jogo nenhum e uma referência para saber se o console acompanhava 1 controle (Control Set) ou 2 controles (Super Set).

Finalmente havia entrado nos 16-bits, e mesmo com meus amigos que também tinham o console eu sentia ainda muita falta de frequentar uma locadora, o pior é que no bairro não existia locadora de games. O que mais tinha eram locadoras de filmes em que o dono colocava uma prateleira dedicada para jogos, mas locadora específica de games do jeito que eu frequentava no bairro antigo, isso não tinha mesmo.

O que me ajudou muito a conhecer os jogos de SNES foi graças à todos os amigos que já tinham o SNES e com isso rolou muita troca de cartuchos, empréstimos, o famoso ‘empresta aí que devolvo sei lá quando’, e nos aniversários acontecia de levarmos os jogos na casa de alguém.

O SNES de 1994 acompanhava Donkey Kong Country

Com essas trocas e empréstimos com os amigos, pude recuperar o tempo perdido do período em que não tive o SNES em casa, pude aproveitar mais porque uma coisa é jogar na casa dos amigos e a outra é ter o console.

No colégio novo também acabei conhecendo novos amigos, e um deles adorava jogar e contava sobre vários jogos que ele conhecia e comprava. Quem ouvia pensava que ele tinha muito dinheiro porque todo dia ele contava sobre um jogo diferente.

Foi aí que perguntei: – Onde você consegue comprar esses jogos?

E ele respondeu: – No sábado eu mostro.

O final de semana havia chegado e fomos em grupo para um lugar no Centro de São Paulo onde acabei conhecendo, a Galeria Pagé.

O Centro de São Paulo quando se trata de jogos eletrônicos ou qualquer coisa eletrônica, é o melhor lugar para encontrar o que você procura. Hoje em dia fica mais fácil ir na Rua Santa Ifigênia, mas a Galeria Pagé em meados dos anos 90 borbulhava de lojas que vendiam todo tipo de jogos e consoles.

E já que o assunto é o SNES, pego como exemplo o jogo Super Mario RPG: Legend of the Seven Stars, era um jogo que os amigos queriam jogar muito nessa época, e todo mundo falava dele.

Bom, em Junho/1996 o preço dele era R$ 109,90, a referência era o preço que aparecia nas propagandas das revistas Ação Games e Super GamePower, normalmente era sempre da Loja DirectShop. Enquanto que na Galeria Pagé, o jogo era encontrado pela metade do preço.

Os lojistas sabiam se o jogo era muito ou pouco procurado. Jogos muitos famosos ou que, mesmos antigos, eram procurados até demais como Top Gear, que naquele momento era um jogo antigo e colocavam ao preço de R$ 20,00. Nesse caso do Mario RPG, a procura era alta e colocavam R$ 50,00. E se quisesse Chrono Trigger, aí meu amigo, era quase R$ 80,00. Mas tinham muitos outros jogos que ficavam na casa dos R$ 10,00.

Naquela época, a única locadora que apareceu próximo de casa foi a Blockbuster com suas volumosas prateleiras de filmes e jogos de Super Nintendo, e cada caixinha era uma mais linda que a outra. O problema era alugar ao preço de R$ 8,75. Bem caro, é o preço que lembro em uma rara tentativa de alugar lá porque queria muito jogar Super Mario World 2: Yoshi’s Island.

A Blockbuster apareceu no Brasil em 1995 e além de filmes, era possível alugar jogos de Super Nintendo, e posteriormente, Nintendo 64

Comecei então a fazer uma coleção de jogos de Super Nintendo com as idas até a Pagé, foi a oportunidade de ter em casa diversos jogos que até mesmo meus amigos não tinham, isso ajudava também na hora de vender os jogos quando não queria mais. Costumava usar as revistas para anotar o nome dos jogos do momento, e corria até o Centro para comprar, depois chegava em casa e jogava aquele jogo por semanas até terminar, e no mês seguinte fazia a mesma coisa.

É claro que existe uma grande diferença entre comprar jogos piratas e originais, ainda mais tratando-se do Super Nintendo, alguns jogos tinha o recurso de salvar o progresso como Super Mario World Donkey Kong Country, porque o cartucho original tinha uma bateria que segurava o progresso do jogo.

Meu Donkey Kong Country 2 era tão ‘Jack Sparrow’ que todos os Mundos já estavam desbloqueados, dava pra zerar só matando os chefões.

Existia uma regra para os jogos de SNES que o pessoal seguia assim: Se o cartucho tinha os parafusos eram originais, se não tinha, era pirata. Os cartuchos originais eram bem pesados e com textura brilhosa, até as artes da label (aquele papel-adesivo que trazia o nome do jogo) brilhava na luz. E claro, quando o jogo era original tinha a caixa e o manual.

E quem podia julgar se o produto era pirata ou não, numa época que a Internet não existia?

Diziam que os cartuchos fabricados pela Dactar, para o Atari, eram piratas assim como qualquer Atari não fabricado pela Polyvox, no Brasil. O do meu pai era da CCE. E qualquer console Clone do NES poderia ser considerado um produto paralelo. Será que podemos mesmo falar assim? É complicado, até porque tratando-se do NES, o que tinha de jogo pirata com cartuchos coloridos não era brincadeira.

A Galeria Pagé hoje em dia se tornou um Shopping com lojas bem diferentes de quando eu frequentava para procurar jogos de SNES

Nada se compara a felicidade de qualquer pessoa que gosta de videogame de poder comprar um videogame, que já é caro, e ainda ter que sustentar o console com jogos a preços absurdos praticados no Brasil.

E essas diferentes realidades eram muito reais na própria locadora em que eu frequentava na infância onde o dono tinha um Phantom System ao invés do NES. Na locadora de Praia Grande, de 1992, tínhamos jogos de Atari na época em que já existiam Mega Drive e Super Nintendo. Um garoto que em 1993 tinha um Odyssey, e que já fazia anos que aquele console tinha saído de linha.

Por isso que é muito importante respeitar a experiência de cada um, aproveitar o que temos e o que conhecemos, sem fazer com que tudo vire uma competição de quem tem o videogame mais poderoso, ou mais jogos comprados nas lojas digitais. A vida fica mais simples assim.

E finalmente estamos em 1997 no momento de grandes mudanças, e lá estava eu nas férias escolares com aquele lindo cartucho de Donkey Kong Country 3, o fatídico jogo que já mostrava que novamente as coisas iriam mudar, e dessa vez começaria uma grande briga entre vários grupos daquele prédio.

E espero que você esteja aqui novamente para acompanhar a última parte deste especial de 10 Anos do Blog MarvoxBrasil.

Quero agradecer ao artista Rachid Lotf, pelas artes maravilhosas que ele faz – شكرا جزيلا لك

Acessem a página com as artes dele, com certeza você vai gostar – www.artstation.com/rachidlotf

Até a próxima!

1 Comment

  1. Fala Marvox, blz? Finalmente consegui ler a segunda parte!
    Quantas memórias! Desde as mais difíceis até as mais vivas!
    Até o mito do videogame estragar TV apareceu!
    Olha, eu que não morei com meus avós as vezes queria jogar videogame por lá e o esquema era o mesmo, TV antiga, nem a pau deixavam. Legal que no fim de 93 apareceu a TV nova!
    O melhor é que aprendi mais sobre o SNES, não sabia qual a diferença do control e super set até hoje!
    Galeria Pagé foi muito bom vc ter mencionado, me trouxe muitas memórias. Saudades de quando eles vendiam videogames. Mas eu fui descobrir o lugar em 99/2000, por causa do Playstation! Uns 3 ou 4 anos depois, já tinham sido bloqueados. Foi uma grande tristeza pra mim.
    Engraçado o lance do cartucho piratão com fases desbloqueadas. Sempre tinha algo assim, né? O meu é o Sonic que a gente começa com 40 vidas e não tem nem o logo da SEGA no começo e nem na tela de título, tiraram na caruda! haha
    Muito legal contar toda sua vivência. Por isso que é muito importante respeitar a experiência de cada um, aproveitar o que temos e o que conhecemos, sem fazer com que tudo vire uma competição de quem tem o videogame mais poderoso, ou mais jogos comprados nas lojas digitais. A vida fica mais simples assim. Quem dera as pessoas respeitassem mais umas as outras…
    É isso! Que venham os próximos capítulos!
    Abraço

    Curtido por 1 pessoa

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